Por que os Aparados da Serra são reconhecidos como Geoparque Mundial da UNESCO

Os Aparados da Serra não impressionam apenas pela altura dos paredões, pela força das águas ou pela sensação de estar diante de uma paisagem rara no Brasil. A região guarda uma história muito mais antiga do que qualquer viagem pode alcançar: uma história escrita nas rochas, nos cânions, nos rios, nas florestas, nos campos de altitude e nas comunidades que vivem neste território.
 
É por essa combinação de geologia, biodiversidade, cultura e turismo sustentável que o território Caminhos dos Cânions do Sul recebeu o reconhecimento como Geoparque Mundial da UNESCO em 2022. A chancela coloca a região no mapa internacional de áreas com relevância geológica e reforça a importância de preservar, estudar e interpretar uma paisagem que ajuda a contar parte da história da Terra.

Cânion Itaimbezinho - Foto: Bárbara Francisco

O que é um Geoparque Mundial da UNESCO?


Um Geoparque Mundial da UNESCO é uma área geográfica reconhecida por reunir sítios e paisagens de relevância geológica internacional. Mas o conceito vai além das rochas. Segundo a UNESCO, esses territórios são administrados a partir de uma visão que une proteção, educação e desenvolvimento sustentável, envolvendo comunidades locais, turismo, cultura e conservação.

 
Na prática, isso significa que um
geoparque não existe apenas para preservar uma paisagem bonita. Ele existe para dar sentido a essa paisagem. Para explicar como ela se formou, por que ela é importante, como pode ser visitada com responsabilidade e de que forma pode gerar desenvolvimento para quem vive no território.
 
No caso dos Aparados da Serra, esse reconhecimento valoriza um dos conjuntos naturais mais marcantes do Sul do Brasil: os grandes cânions da Serra Geral, as trilhas, os rios, as paleotocas, a cultura tropeira, a gastronomia regional e os modos de vida que se desenvolveram ao redor dessas formações.


O território dos Caminhos dos Cânions do Sul


O Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul está localizado na região Sul do Brasil, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul. O território integra sete municípios: Praia Grande, Jacinto Machado, Timbé do Sul e Morro Grande, em Santa Catarina; Torres, Mampituba e Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul. Ao todo, são cerca de 2.830 km² e uma população estimada em pouco mais de 82 mil habitantes.

 
Essa área reúne duas paisagens muito distintas e complementares. De um lado, a Serra Geral, marcada por escarpas, paredões e cânions profundos. De outro, a planície costeira, com lagoas, dunas, rios e influência direta do Atlântico. A UNESCO destaca justamente essa relação entre serra e litoral como uma das características mais especiais do território.

 
Para quem visita
Praia Grande, essa geografia aparece de forma muito clara. A cidade fica aos pés dos cânions e é uma das principais portas de entrada para experiências como a Trilha do Rio do Boi, o Cânion Malacara, os mirantes, os passeios de natureza e as vivências ligadas ao Geoparque.

Território do Geoparque Mundial da Unesco

Uma paisagem formada ao longo de milhões de anos


A história geológica dos Caminhos dos Cânions do Sul está ligada ao antigo supercontinente Gondwana, uma imensa massa de terra que existiu há centenas de milhões de anos. De acordo com a UNESCO, a formação do território envolve antigos sedimentos acumulados durante longos períodos e grandes eventos vulcânicos associados à abertura do Oceano Atlântico.

 
Esses processos deram origem aos planaltos da Serra Geral. Mais tarde, a ação da água, dos rios, do clima e do tempo esculpiu vales profundos e paredões verticalizados, formando cânions como Itaimbezinho, Fortaleza, Malacara, Índios Coroados e outros geossítios da região.

 
Quando o visitante observa os cânions, não está diante apenas de uma paisagem cênica. Está diante de marcas naturais que revelam processos antigos da Terra, registrados em camadas de rocha, cursos d’água, formas de relevo e estruturas que continuam sendo estudadas por pesquisadores.

Pedra do Segredo no Cânion Fortaleza - Foto: Willian Mota

Geossítios: lugares que contam a história da Terra


Dentro de um geoparque, alguns locais recebem destaque especial por seu valor científico, educativo, turístico ou cultural. São os chamados geossítios. No território dos Caminhos dos Cânions do Sul, eles ajudam a interpretar a geodiversidade da região e mostram que o reconhecimento da UNESCO vai muito além dos cânions mais famosos.

 
Em Praia Grande, por exemplo, o Cânion Malacara é um geossítio que permite observar rochas vulcânicas, seixos rolados, geodos minerais e a força das águas no desenho da paisagem. Já o Rio do Boi revela o interior do Cânion Itaimbezinho, com paredões verticalizados de rochas vulcânicas esculpidos pelo sistema de drenagem do rio Pavão.

 
Outro exemplo marcante são as paleotocas, estruturas subterrâneas associadas a escavações feitas por animais pré-históricos, como preguiças gigantes e tatus. A Paleotoca Xokleng, em Morro Grande, reúne galerias com marcas de garras e mais de 100 metros de desenvolvimento linear, sendo um dos registros mais impressionantes do território.

 
Esses lugares transformam a visita em uma experiência de leitura da paisagem. Cada pedra, rio, trilha e formação revela um fragmento da história natural da região.

Trilha do Rio do Boi - Foto: Deivid Mattos

Conservação, educação e turismo sustentável


O reconhecimento como Geoparque Mundial da UNESCO também reforça um compromisso: proteger o patrimônio natural e cultural enquanto se promove o desenvolvimento local. O próprio Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul afirma que sua atuação busca combinar conservação, educação e turismo, favorecendo pesquisa científica, atividades educativas e visitação de mínimo impacto.

 
Isso é especialmente importante em uma região onde o turismo de natureza cresce a cada ano. Trilhas, cânions, cachoeiras, rios e mirantes precisam ser visitados com orientação, cuidado e respeito aos limites do ambiente.

 
Por isso, a presença de guias cadastrados, condutores locais, roteiros bem estruturados e informações interpretativas fazem parte da experiência. O objetivo não é apenas chegar a um lugar bonito, mas compreender o valor daquele lugar e ajudar a mantê-lo preservado para as próximas gerações.


Cultura, comunidades e identidade local


Um Geoparque Mundial da UNESCO não é feito apenas de geologia. A UNESCO destaca que esses territórios também devem valorizar a relação entre o patrimônio geológico e os demais aspectos naturais, culturais e imateriais da região.

 
Nos Aparados da Serra, essa relação aparece na cultura tropeira, na presença indígena, nas histórias das comunidades rurais, nos saberes ligados à terra, na gastronomia, no artesanato, nas festas locais e na maneira como a vida se organizou ao redor da serra, dos rios e dos caminhos antigos.

 
A paisagem moldou a cultura. E a cultura, por sua vez, ajuda a interpretar a paisagem.

É por isso que visitar os Aparados da Serra é mais do que percorrer trilhas. É entrar em contato com um território vivo, formado por natureza, história, trabalho, memória e pertencimento.

Paleotoca Xokleng em Morro Grande- SC - Foto: Marcelo Crepaldi

Por que esse reconhecimento importa para quem visita a região?


Para o viajante, estar em um Geoparque Mundial da UNESCO significa visitar um destino com valor reconhecido internacionalmente. Significa caminhar por paisagens que têm relevância científica, ambiental e cultural. Significa também ter a oportunidade de viver o turismo com mais consciência.

 
A chancela da UNESCO ajuda a fortalecer o destino, qualifica a forma como a região é apresentada ao mundo e incentiva práticas mais responsáveis. Para Praia Grande e para os municípios vizinhos, isso representa uma oportunidade de desenvolver o turismo de natureza com mais organização, mais conhecimento e mais valorização das comunidades locais.

 
Para quem se hospeda na Morada dos Canyons, esse reconhecimento dá ainda mais profundidade à experiência. A vista dos cânions, as trilhas, o clima da serra, a gastronomia regional e os passeios ganham outra camada de significado quando se entende que tudo isso faz parte de um território reconhecido pela UNESCO.


Aparados da Serra: uma paisagem para sentir e compreender


Os Aparados da Serra encantam primeiro pelo impacto visual. Mas permanecem na memória por algo maior: a sensação de estar em um território que carrega tempo, natureza e história em cada formação.

 
O reconhecimento como
Geoparque Mundial da UNESCO confirma aquilo que a paisagem já anuncia por si mesma. Esta é uma região rara, moldada por processos geológicos antigos, protegida por unidades de conservação, habitada por comunidades com forte identidade cultural e preparada para receber visitantes que buscam contato real com a natureza.
 
Conhecer os Aparados da Serra é olhar para os cânions com mais atenção. É perceber que cada paredão, cada rio e cada trilha fazem parte de uma narrativa muito maior.

 
Uma narrativa que começou há milhões de anos e segue viva no território dos Caminhos dos Cânions do Sul.

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