Onça-parda nos Aparados da Serra: conheça o papel do maior felino da região
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Discreta, solitária e fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas, a espécie está presente na região da Serra do Faxinal, território marcado pelos cânions e pela biodiversidade do Sul de Santa Catarina.
Conhecida como onça-parda, suçuarana, leão-baio e por diferentes outros nomes ao redor do Brasil, a Puma concolor é um dos grandes representantes da fauna brasileira.
Na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o termo “leão-baio” também é bastante utilizado. Em outras partes do país, a espécie recebe nomes como suçuarana, onça-bodeira, onça-vermelha, lombo-preto e mossoroca. As diferenças de nomenclatura estão relacionadas principalmente à herança cultural e linguística de cada região.
Na região dos Aparados da Serra e da Serra do Faxinal, no Sul de Santa Catarina, a presença desse grande felino tem importante significado ecológico. O território integra uma região de grande diversidade ambiental, com áreas de Mata Atlântica, campos, florestas e formações associadas aos cânions, além de estar inserido no Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul.
Por Emanuelle Pasa
Bióloga Mastozoóloga Analista Ambiental – Mestranda em Ecologia e Evolução da Biodiversidade PUCRS
Projeto de Conservação Carnívoros dos Cânions
Um predador essencial para o equilíbrio ambiental
A onça-parda é considerada um predador de topo e exerce papel fundamental nos ecossistemas em que está presente.
Ao predar diferentes espécies, contribui para a regulação das populações de suas presas e participa diretamente da estrutura e da dinâmica das comunidades ecológicas.
Sua conservação, portanto, vai além da proteção de uma única espécie. A manutenção de populações de grandes predadores está relacionada à preservação de diversas outras espécies que compartilham o mesmo ecossistema.
Nos Aparados da Serra, um dos importantes remanescentes de Mata Atlântica do Sul do Brasil, essa função ganha ainda mais relevância.
Presente, mas dificilmente vista
Mesmo em regiões onde a espécie está presente, encontrar uma onça-parda na natureza é algo raro.
Isso acontece por uma combinação de características biológicas e comportamentais. O puma é solitário, discreto e procura evitar o contato com seres humanos. Além disso, consegue detectar a presença de pessoas muito antes de ser percebido.
Sua movimentação silenciosa e a pelagem em tons de marrom, cinza ou baio também favorecem a camuflagem em ambientes naturais.
A espécie apresenta maior atividade durante o amanhecer, o anoitecer e a noite, embora também possa se deslocar durante o dia. Outro fator importante é o tamanho de seu território: um único indivíduo pode utilizar uma área de aproximadamente 50 a 500 km².
Na Serra Catarinense, especialmente em áreas preservadas e conectadas a grandes remanescentes naturais, isso significa que a espécie pode circular sem ser percebida pelas pessoas. A ausência de avistamentos, portanto, não representa necessariamente a ausência do animal.
Como identificar a presença de um puma?
Nem sempre é necessário visualizar o animal para identificar sua presença.
As pegadas estão entre os principais indícios deixados pelo puma durante seus deslocamentos por estradas, trilhas e locais em que o solo permite a marcação.
Embora possam ser confundidas inicialmente com pegadas de cães de grande porte, existem diferenças importantes. As marcas dos felinos apresentam formato mais arredondado e normalmente não registram as unhas, já que suas garras são retráteis.
Outro recurso importante são as armadilhas fotográficas instaladas estrategicamente em estradas ou trilhas utilizadas pelos animais. Fezes também podem indicar a presença da espécie, embora sejam encontradas com menor frequência.
Os ambientes utilizados pela espécie
Toda a região dos Aparados da Serra é importante para a espécie devido à grande área necessária para sua sobrevivência e deslocamento.
Alguns ambientes, entretanto, possuem papel especialmente relevante. As encostas florestadas dos cânions oferecem áreas de descanso, reprodução e criação dos filhotes. As matas ciliares e de galeria funcionam como corredores ecológicos naturais, permitindo deslocamentos por grandes distâncias.
Já os mosaicos formados por campos e florestas, incluindo áreas de transição entre matas de araucária e campos de altitude, favorecem a presença de espécies que fazem parte da alimentação do puma.
Essa diversidade de ambientes também caracteriza diferentes pontos do território do Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, reforçando a importância da conservação e da conectividade entre áreas naturais.
O que a onça-parda come?
O puma é carnívoro, mas está entre os felinos considerados mais generalistas em relação à alimentação.
Na região Sul do Brasil, suas principais presas incluem cervídeos, como o veado-catingueiro, além de roedores de médio e grande porte, como cutias, pacas e capivaras.
Catetos, quatis e tatus também podem fazer parte de sua alimentação. A dieta pode incluir ainda javalis, considerados uma espécie exótica invasora. Na ausência de presas maiores, o puma também pode consumir animais menores, como lagartos e aves.
Essa variedade alimentar reforça sua função na cadeia ecológica e sua influência sobre diferentes populações animais.
Quais são as principais ameaças?
Apesar de sua capacidade de adaptação, a onça-parda enfrenta diferentes ameaças. Entre as principais estão a perda e a fragmentação de habitat, os conflitos entre seres humanos e fauna e os atropelamentos.
Nas proximidades de propriedades rurais, a redução das presas naturais pode fazer com que o puma eventualmente ataque animais domésticos, como ovelhas, cabras e bezerros. Esse comportamento pode gerar conflitos e resultar na perseguição ou no abate dos felinos.
Nas estradas, o risco está relacionado aos grandes deslocamentos realizados pela espécie. Os pumas podem cruzar rodovias durante seus percursos, especialmente durante a noite, aumentando o risco de atropelamentos.
Em regiões turísticas, o crescimento desordenado de empreendimentos também pode pressionar os habitats naturais. Poluição sonora, perturbação luminosa e descarte inadequado de resíduos são alguns dos fatores capazes de alterar os padrões de movimentação e caça e afugentar espécies que servem de alimento para o puma.
Essa questão é especialmente importante em destinos ligados ao turismo de natureza, como a Serra do Faxinal, os Aparados da Serra e demais áreas naturais da Serra Catarinense.

O que fazer ao encontrar uma onça-parda?
Embora os encontros sejam raros, conhecer o comportamento adequado é importante para moradores, visitantes e profissionais que circulam por áreas naturais.
Caso um puma entre em quintais, garagens, galpões ou residências, não se deve tentar acuá-lo ou alimentá-lo. A orientação é manter a calma, evitar movimentos bruscos e aglomerações, afastar-se e permanecer em segurança. Os órgãos ambientais competentes ou a Polícia Ambiental devem ser acionados.
Ao encontrar o animal em uma rodovia, a orientação é reduzir a velocidade e permitir que ele atravesse e se afaste.
Durante trilhas e outras atividades turísticas, algumas medidas preventivas também são recomendadas, como informar-se previamente sobre a fauna local, caminhar preferencialmente em grupos e manter crianças e animais de estimação próximos e sob supervisão.
Em um encontro direto:
- Não corra. O movimento de fuga pode ativar o instinto de caça do animal.
- Mantenha-se firme e observe o animal sem fixar diretamente os olhos nele.
- Mantenha crianças e animais de estimação próximos.
- Procure parecer maior, levantando os braços ou abrindo uma jaqueta.
- Faça barulho, grite, assobie ou utilize um apito.
- Recue lentamente e dê espaço para que o animal também possa se afastar.
- Caso existam filhotes, nunca permaneça entre eles e a mãe.
- Se houver um ataque, utilize objetos disponíveis para se defender.
Os pumas raramente atacam seres humanos e geralmente procuram evitar o contato. Respeitar seu espaço e compreender seu comportamento são medidas fundamentais para uma coexistência segura.
Encontrou pegadas ou outros vestígios?
Registros de rastros também podem contribuir para o conhecimento e a conservação da espécie.
Sempre que possível, a recomendação é fotografar as pegadas ou outros vestígios e registrar a localização, utilizando pontos de referência, distâncias em trilhas ou coordenadas geográficas.
Caso o registro seja realizado em uma propriedade particular, os proprietários devem ser informados. Em parques municipais, estaduais ou federais, a informação pode ser repassada aos gestores ou funcionários responsáveis pela área.
Também é importante lembrar que os animais silvestres são protegidos pela legislação brasileira. O material destaca a Lei nº 9.605/1998, que proíbe práticas como abate, perseguição, caça e captura de espécimes da fauna silvestre.
Turismo de natureza como aliado da conservação
A presença da onça-parda nos Aparados da Serra evidencia a relação direta entre turismo de natureza e conservação ambiental.
A visitação responsável de parques e áreas naturais pode contribuir para a valorização e proteção da biodiversidade, desde que seja realizada de maneira estruturada e planejada.
O turismo de natureza pode gerar benefícios ambientais, econômicos e sociais, promovendo conservação da fauna e da flora, desenvolvimento local, geração de renda, valorização cultural e educação ambiental.
Essa relação ganha relevância em um território como o Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, que reúne municípios, comunidades, empreendimentos e áreas naturais conectados à identidade dos cânions do Sul do Brasil.
O turismo responsável, entretanto, não deve estimular aproximações, perseguições ou exposição desnecessária dos animais silvestres. Conhecer a fauna também significa compreender seus limites e respeitar seu comportamento natural.
Na Serra do Faxinal e nos Aparados da Serra, a presença da onça-parda reforça a importância ambiental de uma região marcada pela conexão entre cânions, campos e florestas.
Mais do que a possibilidade de um raro avistamento, saber que um grande predador como o puma circula pela região ajuda a dimensionar a biodiversidade existente neste trecho do Sul de Santa Catarina e a responsabilidade compartilhada por moradores, visitantes e empreendimentos turísticos em sua conservação.
Fonte: Azevêdo, FC; Saranholi, BH; Dias, DM; Eizirik, E.; Abra, FD; Lemos, FG; Oliveira, TG. 2023. Puma concolor. Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade – SALVE. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br. Identificador de Objeto Digital (DOI): https://doi.org/10.37002/salve.ficha.14019.2.